manifesto

O que é o sagrado, do seu feminino?

POR CRIS MARQUES

ANTES, UM AFAGO...

 

É sobre honrar a Mãe Natureza e a nossa ancestralidade, com consciência de que a cura de uma mulher é a cura de todas as mulheres. É a (re)conexão com sabedorias e medicinas ancestrais que nos conectam com nossa essência mais sagrada. É um caminho de volta ao lar como filha da Terra.

É o reconhecimento de que a energia criadora é, em sua essência, feminina, porque é misteriosa, cíclica, receptiva, abundante, paciente, vigorosa e fluída. Ao mesmo tempo, traz a potência da energia e a força do masculino, forças complementares em tudo que emerge da natureza. É o entendimento de que tudo é sagrado. 

Nos círculos, nos reencontramos para acolher e sermos acolhidas. Um espaço onde a voz não é silenciada, onde escuta e fala são sagradas, onde nos olhamos, reconhecendo-nos umas nas outras.

A nossa sacralidade está em ser quem somos. É ter respeito e confiança em nós mesmas e em outras mulheres. É aceitar o nosso corpo, a nossa verdade e as nossas escolhas. Sem máscaras, sem padrões, sem medos, pois somos plurais e diversas. Somos sagradas, sangrando ou não, com ou sem útero. 

É entender que o véu que separa o sagrado do profano foi inventado por aqueles que nos fizeram acreditar, por muitos anos, que deveríamos ser apenas um arquétipo. Somos sagradas, profanas, guerreiras, mães, donzelas, feiticeiras e o que mais quisermos ser… Assim como a lua e seus ciclos, vamos nos apropriando das muitas facetas daquilo que somos.

Somos mulheres de histórias semelhantes, porém percorrendo caminhos diversos. Que as nossas diferenças nos fortaleça e não nos distancie. Para que possamos verdadeiramente, nos apropriar do ser plural que somos, sem narrativas singulares. 

Aqui, é onde nos despimos de tudo aquilo que aprisiona, sem importar se você chegará com seu vestido esvoaçante, de calça ou completamente nua. Não importa se traz em sua cabeça tranças, flores ou dúvidas. Não importa a sua raça,  seu gênero ou de onde você vem.

É um convite para reconectar e celebrar a sacralidade feminina de dentro para fora. É um caminho de autoconhecimento, onde você assume a potência de cada ciclo, entendendo que vamos mudando à medida que a lua caminha no céu, pois também a temos dentro de nós. 

O sagrado do feminino é o momento em que nos apropriamos do nosso próprio plantio: semeamos, adubamos e podamos os galhos secos para que estes possam fortalecer nossas raízes ancestrais.

RAÇA, GÊNERO E CLASSE

Sei o quanto que, para algumas mulheres, esse tipo de vivência é fora de sua realidade financeira. Infelizmente, dentro desses caminhos também existem lugares que segregam e auto-excluem aquelas que gostariam de vivenciar algo assim, tornando o “sagrado feminino” inatingível.

É urgente termos consciência da estrutura social que sustenta grande parte dos movimentos de sagrado feminino e reconhecer os nossos privilégios em relação a outras mulheres que estão longe de estarem dentro desses círculos intitulados de sagrados. Sagrado para quem? 

Vivemos em uma estrutura social desigual, portanto, quanto mais diverso for o nosso círculo, mais potente ele será. É urgente problematizar (sim!) as diferentes realidades que não ecoam com o discurso “gratiluz”. Narrativas elitizadas inviabilizam a integração com manas que vivem realidades discrepantes de todo esse discurso. É bonito, mas muito violento! 

Talvez precisemos compreender mais da nossa humanidade para vivenciar a sacralidade. Acredito em outros caminhos, para além dos padrões impostos. Acredito em um movimento de empoderameto feminino e resgate da nossa sacralidade como algo muito maior, que não se define apenas com um nome ou um conceito linear. 

O que adianta falar somente da “cura pelo amor”, enquanto vivemos uma realidade onde a cada 2 horas uma mulher é morta por femicídio, sendo que as principais vítimas são mulheres negras? Onde 13 mulheres são mortas por dia, no Brasil, vítimas de seus companheiros ou ex. Como falar sobre manifestação daquilo “que você quiser”, enquanto a metade da população vive com menos de R$ 15 por dia? Como falar para uma mana sobre ginecologia natural, se mais de 20% das brasileiras não têm acesso ao sistema básico de saúde e não frequentam ginecologistas? Como acolher o feminino ferido de uma mulher trans, se vivemos no país que lidera o rankig de assassinatos de transexuais? Pesado, né? Mas essa são realidades de muitas manas. 

Por isso, enquanto houver uma mulher desejando participar dos círculos do “sagrado” ou do “empoderamento feminino” ela não pode ser excluída, seja qual for sua condição de vida, raça ou gênero.

Vale ainda refletir e compreender que há uma diversidade múltipla de mulheres vivendo a potência do seu ser sagrado onde quer que estejam, compartilhando e fazendo muito por si e por outras sem reproduzir esses novos conceitos. São lideranças em aldeias, quilombos e outras territórios tradicionais, comunidades periféricas, movimentos sociais…

Esse espaço deve ser ocupado por todas! Mulheres cis, trans, negras, indígenas, com deficiências, de diferentes classes, mulheres gordas… Onde está a representatividade real? Não adianta ficar no discurso apenas nas mídias sociais. Se a falta de representatividade dentro dos círculos femininos te incomoda, saiba que também não me sinto confortável em ver esses espaços ocupados majoritariamente por brancas, de classe média, com discursos quase inacessíveis para a maioria, pois ainda que somos minoria.

Não é sobre eu ou você, é sobre nós e muitas lutas! Existem diferentes sagrados femininos nas periferias, nas aldeias, nos quilombos, nas comunidades mais isoladas… Ouso dizer, que essas mulheres estejam perpetuando os mais sagrados saberes ancestrais, deixando legados de muitas histórias, sobretudo de resistência. 

Vivemos num mundo em descontração e despadronização, mas ainda estamos imersas em vários sistemas de exclusão que são reproduzidos pelo patriarcado. Em muitas vivências do “Sagrado Feminino” são reproduzidas, mesmo que inconsciente, repressões extremamente violentas para muitas mulheres. Enquanto não sairmos desse entendimento de uma única narrativa, estaremos fadadas a repetir a mesma opressão que estamos lutando há anos para romper. Ou pior, deixaremos sempre esses temas velados, sob um discurso injustificável de justificativas que mais culpabilizam do que libertam. 

Sendo assim, mana, se você está lendo esse texto e quer estar em uma das vivências do Enraízes e não tem condições de pagar ou, em algum momento já se auto-excluiu desses lugares porque não se sentiu confortável, me chame! Vamos conversar. Não se sinta acuada, não se exclua. O que faço é para todas nós, venha e ocupe esse lugar que já é seu.  

Com amor, 
Cris Marques
@raizesdomundo

“O arquétipo da Mulher Selvagem, bem como tudo o que está por trás dele, é o benfeitor de todas as pintoras, escritoras, escultoras, dançarinas, pensadoras, rezadeiras, de todas as que procuram e as que encontram, pois elas todas se dedicam a inventar, e essa é a principal ocupação da Mulher Selvagem. Como toda arte, ela é visceral, não cerebral. Ela sabe rastrear e correr, convocar e repelir. Ela sabe sentir, disfarçar e amar profundamente. Ela é intuitiva, típica e normativa. Ela é totalmente essencial à saúde mental e espiritual da mulher.” 

Clarissa Pinkola Estés